terça-feira, 6 de março de 2007

Uma cartinha ao amigo que mora no norte

A Primeira Vítima obteve, com exclusividade, a correspondência enviada há pouco por um importante editor brasileiro ao presidente da América, em agradecimento pelo discurso proferido no dia de ontem. Leia abaixo a íntegra da carta:

Excelentíssimo senhor presidente da América
Jorge UU. Buch,

Ah, como bom brasileiro, permita-me tratar-lhe em tom bem pessoal.

Presidente, o senhor não sabe como fiquei emocionado com seu discurso de ontem. Cheguei a chorar! Que belos contornos de linguagem, que inteligência bem acabada, que capacidade de liderança!

Quando o senhor citou Sua Santidade, o Papa Benedito, e falou no “sueño americano”, pensei que este mês nos realiza mesmo um sonho. Duas visitas tão ilustres: primeiro o senhor, depois Ele!

É uma pena que o presidente não possa vir conhecer nosso prédio. Queria que visse como nos esforçamos para sermos modernos. Tenho a certeza de que alguns funcionários seus, que tanto nos brindam com suas visitas, saberão transmitir-lhe a riqueza de nossas dependências.

Pudéramos ter a liberdade de sua imprensa e o mesmo respeito pela livre iniciativa que o seu governo proporciona, iríamos ainda mais longe.

Presidente, achei excelente a idéia no navio-hospital. Já imagino esse barcão entrando por nossos rios, vendendo medicamentos patenteados, esterilizando mulheres e homens...

Aliás, uma curiosidade: a fila para marcar consulta será no consulado? O lugar já nos é um exemplo do bom atendimento do qual seu povo é capaz.

Também fiquei em feliz em saber que o senhor abrirá um curso para técnicos em saúde no Panamá, aberto a todos os interessados da raça latina. Que aprendam a operar seus equipamentos! E que aprendam a tratar do bioterrorismo, que hoje é o mal maior que nos atinge!

Quarentena, reclusão, estado de alerta... Ah, que bom seria ter tudo isso por aqui!

Sabe como é, tem gente boba e feia que continua acreditando no tal sistema público. Uma besteira. São Paulo, nossa cidade (Buenos Aires é um pouco mais para baixo), que é uma das capitais do mundo com maior número de leitos privados de hospital por habitante, é um exemplo do sucesso do livre mercado na saúde: quase não temos doentes!

Quando o senhor invadir Cuba, por favor não nos envie aqueles médicos que ainda acreditam que saúde se resolve com atenção básica. Viva a tecnologia! Viva a liberdade!

Mudando de assunto, se o senhor me permite, tenho aqui uma lista com alguns pedidos. Encaminharia novamente ao Santa Claus, como faço todos os anos. Mas, depois do discurso de ontem, acho que o presidente vai folgar em receber. São apenas algumas idéias, de quem vê de perto a tristeza que ser pobre é:

1. Temos um problema sério com nossa polícia. Eles comem coxinhas em vez de rosquinhas. O que o senhor acha de mandar-lhes umas caixas de donuts para aprenderem o que é bom?

2. Por aqui, o futebol é uma verdadeira praga. O presidente deveria derrubar as traves que empestalham todo o país, instalando no lugar delas cestas de basquete – daquelas com correntes debaixo da cestinha. Acho aquilo tão bonito! É uma pena que ainda não as tenhamos.

3. Outra modernidade ainda pouco difundida entre nós é o ar-condicionado. O senhor poderia abrir uma linha de crédito a pobres dispostos em importar o aparelho. Tenho certeza que a temperança do clima vai ajudá-los a serem mais trabalhadores e menos libidinosos.

4. Armas, presidente, nossa sociedade precisa desesperadamente de armas! Não sabemos mais como defender a propriedade diante do povo e frear os instintos bolchevistas desse governo.

Bom, por enquanto é só isso. Espero que o senhor não precise chegar muito perto do Lula para, não lhe sentir o cheiro. Saiba que estamos à sua inteira disposição.

E, ao fim, um conselho: não visite favelas, como fez o Climtom. Não servem para nada.

Mais uma vez, muito obrigado pela atenção,

Do seu amigo fiel,

XXXXXXXXXX

Um comentário:

Olvídio Mor Horelhãns disse...

Sensacional, Paco.

OMH